Passaporte Imunológico – Ainda não é tempo

Luana Araujo

Médica infectologista pela UFRJ
Mestranda em Saúde Pública e Sommer Scholar pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health – EUA


Já faz muito tempo em que o mundo enfrentou a sua última pandemia global de alta letalidade. Em 1918, em um mundo muito diferente deste em que vivemos hoje, um vírus do tipo Influenza provocou a Gripe Espanhola, doença que infectou aproximadamente um quarto da população mundial e dizimou 50 milhões de vidas ao redor do planeta.  

Cem anos depois, nosso estilo de vida nos deixa ainda mais vulneráveis aos caprichos da natureza.  Temos uma população mundial inédita de 7 bilhões de pessoas. Vivemos a era da globalização, da movimentação populacional rápida, da comunicação instantânea, da exploração irrefreada e inconsequente dos recursos naturais. Felizmente, a tecnologia floresceu e nos promoveu avanços astronômicos na Medicina e na Saúde Pública: melhores resposta do sistema, do treinamento dos profissionais de saúde, sistema de vigilância, métodos diagnósticos, suporte médico e, talvez, a intervenção de maior impacto, as vacinas. Ainda assim, nossas ferramentas de maior eficiência comprovada contra a disseminação de doenças respiratórias virais como a Gripe Espanhola e a COVID-19 são as mesmas de um século atrás: higiene de mãos e distanciamento social.  Entretanto, o distanciamento social se tornou um problema econômico tamanho que, segundo alguns, pode significar perdas financeiras e de saúde ainda maiores que a pandemia atual em si.

Países de alto desenvolvimento econômico – como os europeus e os Estados Unidos – têm maiores reservas para lidar com as perdas financeiras volumosas que tanto a doença, quanto as medidas de resposta a ela, têm deixado. Mesmo assim, o desafio que vêm enfrentando deixará marcas profundas. Já os países de baixo e médio desenvolvimento econômico têm sofrido para adaptar as reconhecidas medidas de distanciamento social, quarentena e isolamento as suas temerárias realidades socioeconômicas. Esta tem se mostrado uma luta desigual, em que o vírus tem esbanjado toda a sua agilidade e competência frente a máquinas estatais e sistemas de saúde cronicamente mal financiados, mal geridos e mal preparados para desafios deste calibre.

O Brasil, como outros países de perfil socioeconômico similar, tem padecido para implantar estas intervenções uniformemente em seu território. A falta de evidência adaptada, as interpretações técnicas equivocadas, o analfabetismo científico disseminado, e a dificuldade de se criar um consenso entre ciência e política têm cobrado o seu preço. De forma compreensível, escolher entre o fatalismo da pandemia e a inevitabilidade do massacre econômico é decisão complexa e de repercussão de longo prazo, mas, atualmente, inevitável. Na busca de uma solução intermediária, o atual Ministro da Economia, Paulo Guedes, em consonância com outros líderes internacionais, mencionou a possibilidade da criação de um “Passaporte Imunológico” – um documento que atestaria a imunidade adquirida de um paciente que teve a doença e se recuperou dela, permitindo que o mesmo voltasse ao mercado de trabalho e à vida social de outrora. Teoricamente, é uma grande ideia. Só faltou combinar isso com a tecnologia da qual dispomos até agora e com o próprio vírus.

Atualmente são dois os testes laboratoriais disponíveis no país para utilização na COVID-19. O teste padrão-ouro, PCR (polymerase chain reation), identifica a carga genética do vírus a partir de amostras de secreções diversas:  naso e orofaringe, sangue e lavado bronco-alveolar. É essencial, porque um teste positivo mostra diretamente a presença do vírus no organismo do paciente. O que fazemos em larga escala, obviamente, é o procedimento menos invasivo – o teste da secreção de naso e orofaringe – mas, infelizmente, o menos sensível. Em pacientes assintomáticos, esta sensibilidade é baixa, em torno dos 60%[1]. Isto significa que, em 40% dos casos em que o teste é feito, embora o paciente tenha o vírus em si, o teste falha e tem um resultado falso-negativo. Para uma doença de transmissibilidade tão elevada esta é uma margem perigosíssima. Se o utilizássemos para o tal passaporte imunológico como prova de infecção, 4 a cada 10 indivíduos assintomáticos voltariam à sociedade prontos para disseminar uma doença de altíssima transmissibilidade. O objetivo do Ministro não seria alcançado, e enfrentaríamos uma nova onda da pandemia.

O outro teste é o que mensura os anticorpos contra a doença, os quaiso organismo produz quando entra em contato com um invasor. Mas existem ao menos três problemas importantes associados a esta situação.

primeira questão é que o desenvolvimento de uma resposta de anticorpo à infecção pode ser dependente do hospedeiro e levar tempo – até 14 dias para o surgimento da imunoglobulina do tipo IgG que, teoricamente, provaria a inativação do antígeno, como acontece na maior parte das infecções. Mas, no caso dos imunossuprimidos, por exemplo, essa reposta pode nem acontecer. Além disso, segundo documento do próprio Ministério da Saúde[2], a sensibilidade do teste sorológico no Brasil varia muito entre os fabricantes, o que novamente levaria a um erro diagnóstico crucial em assintomáticos.
segundo problema é a especificidade do teste, ou seja, o quanto ele é capaz de ter certeza que o resultado positivo significa uma resposta do organismo ao coronavírus (SARS-CoV-19). Não há estudo clínico que demonstre que não exista reação cruzada da detecção das imunoglobulinas IgM/IgG para SARS-CoV-19 com outras doenças (causadas ou não por outros coronavírus não-SARS).
terceira dificuldade é sobre as características da imunidade que esta infecção promove. Se a imunidade relacionada ao SARS-CoV-2 for similar aos seus “parentes” que causam doença respiratória branda, esta imunidade é transitória. Isto significa que o paciente pode se reinfectar pelo mesmo vírus várias vezes ao longo de sua vida, podendo fazer novo quadro de doença e disseminando mais uma vez o vírus pela população ao seu redor. Também não sabemos a duração desta transitoriedade, o que inviabiliza a aposta em curto prazo nesta estratégia enquanto não obtivermos dados mais robustos da história natural da doença. Isto sem contar a própria invejável capacidade mutagênica do vírus, que pode eventualmente se tornar um problema maior não só para o sistema imunológico humano, mas para toda a nossa tecnologia diagnóstica.

Cientificamente, portanto, até 12 de abril de 2020, a criação do Passaporte Imunológico como política de Saúde Pública é inviável do ponto de vista técnico. A tecnologia disponível, aliada às falhas ainda existentes no conhecimento sobre o vírus e a doença em si – mesmo que o sistema suportasse perfeitamente toda a implementação da ideia – criam evidências de qualidade muito questionável para a estruturação desta estratégia. Tal adoção seria uma aposta baseada muito mais em um ato de fé, em que todas as nossas assunções nos favorecem, que em um ato de ciência em si.

Os obstáculos à resposta à COVID-19 e à mitigação dos seus efeitos no Sistema de Saúde em países de baixo e médio desenvolvimento econômico como o Brasil são públicos e avassaladores. É natural, importante e valoroso que os governantes busquem desenvolver estratégias adaptadas ao nosso cenário para superar estes desafios, mas estas precisam ser estruturadas considerando-se as potências e as falhas do conhecimento científico vigente para que seu resultado tenha validade. Infelizmente, até este momento, a criação do Passaporte Imunológico não confere segurança ao indivíduo, ao Estado ou à Saúde Pública. 


[1]Wang W, Xu Y, Gao R, et al. Detection of SARS-CoV-2 in Different Types of Clinical Specimens. JAMA. Published online March 11, 2020. doi:10.1001/jama.2020.3786

[2]Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde – SCTIE. ACURÁCIA DOS TESTES DIAGNÓSTICOS REGISTRADOS PARA A COVID-19 (versão 1). Ministério da Saúde do Brasil. 2020:20.